Friday, December 18, 2009

Quando a paz bateu á porta

Paz

Esta manhã foi diferente das outras: o sol já estava a meio-dia e, em vez do barulho das bomas ou dos gritos de um camarada a acordar-me, era a bela música dos pássaros. Já lá vão uns anos que não ouvia este mel, esta doçura a penetrar a minha alma… Os irmãos que acordavam ao meu lado era o mesmo número que se deitou na outra noite. Será que ja morri? Isto é tão surreal! Será que a guerra já acabou? Não ouço as explosões, nem os desparos ferozes contra os inimigos invisíveis.

Hoje é um dia de paz! Passados cinco anos… finalmente um dia de paz… Ainda duvidei em levantar-me rapidamente, pois encontrava-me debaixo de uma janela e podia levar um tiro de um daqueles “sniper’s” invisíveis. Os primeiros minutos foram de grande confusão e desentendimento. A guerra tinha tirado folga, deixando todos desconfiados e sem saber o que fazer. Perguntávamos uns aos outros se a guerra ja tinha terminado ou se seriamos vítimas de uma outra bomba “anti-matéria” – ouvimos dizer que este tipo de bombas sao lançadas numa manhã silenciosa, responsável pela destruição de Oceânia e de outros países pelo Oceano Índico. Mas uma coisa dizia-me que não iria haver um ataque desses… pelo menos hoje não…

O céu estava amarelo dos químicos e cheio das “estrelas do dia”, minas aéreas, que não conseguimos ver durante a noite. O silêncio transmite-me uma calma… é tão bom ouvi-lo… tão bom sentir o vento a passar por entre os meus dedos… Por uns segundos, deixei aquele mundo e regressei ao passado, quando rondava os meus 19 anos, quando tudo tinha cor, quando ainda se ouvia os risos das crianças… as cores do arco-íris espalhado nos rostos de cada pessoa…

Lembro-me dos meus filhos e da minha mulher, dos seus risos e sorrisos dando cor à própria cor, tornando o verde mais verde, o vermelho mais vermelho… Aquele toque de Deus no sorriso da minha filha que encantava e conquistava milhões de corações… A magia da Afrodite nos olhos da minha mulher, aquele brilho que nunca deseparecerá da minha memória… A arte de Pollock a escorrer pelas mãos do meu filho… Que saudades!.. As lágrimas cairam pelo meu rosto ao poder honrar a memória da minha família.

Pedro, uma grande amigo meu, veio ter comigo, perguntando se sabia o que se passsava. Eu sabia tanto como ele. Decidimos descer até lá em baixo para ver se precebiamos melhor o que se passava. Levámos as armas, afinal, o cuidado nunca foi pouco. A cidade havia sido reduzida a pó (“do pó vieste, em pó te tornarás”), e se já tinham passado uns meses desde que eu descera até à zona 0… já não reconhecia esta cidade. Nas ruínas de uma capela, havia uma concentração de sobreviventes. Pareciam porcos, com as suas máscaras de “OX” e aqueles que não as tinham estavam contaminados pelo vírus “Cinza” – eram magros, tinham os olhos vermelhos de sangue e a pele cinzenta. O grupo parecia estar em oração, provavelmente a dar graças pelo milagre que acabara de acontecer.

Apesar da alegria de termos finalmente um dia de paz, os meus olhos ainda viam tristeza… Uma mãe, com o filhos nos braços, pedia para o padre baptizar a sua criança, mas ele recusava fazê-lo porque a criança já se encontrava morta e em fase decomposição. Os gritos de tristeza da mãe furavam as almas daqueles que já nem as tinham, perturbava os mortos e matava os vivos… Eram como balas a trespassar o meu corpo… A cada lágrima que caía, o chão estremecia como se uma bomba acabasse de explodir…

Só de pensar que tudo isto começou com a birra de quatro homens…

Duas crianças passaram por mim a correr e a brincar, a rir e a chorar de alegria… Foi nesse momento que a minha fé aumentou e a minha esperança ganhou vida… Aí eu soube qual era o meu novo objectivo.

Aqui me encontro a escrever neste pedaço de papel que encontrei para que nele fique marcado na História o primeiro dia de paz… e como a esperança nasceu nos corações do Homem. Temos muito trabalho para fazer ainda hoje, mas os deuses estão do nosso lado e tudo correrá melhor…

Tem esperança, meu irmão, num mundo melhor do que este que acabámos de destruir…

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